O Alienista

RELEASE

"A loucura, objeto dos meus estudos,
era até agora uma ilha perdida no oceano da razão;
Começo a suspeitar que é um continente".

Simão Bacamarte
O Alienista Machado de Assis

Para comemorar seus 10 anos de sua trajetória a Cia de Teatro Nu Escuro investe em um novo desafio e transpõe da literatura para o palco o conto "O Alienista" de Machado de Assis. Primeiro pelo amplo sentido questionador desta obra, debatendo o que a sociedade rotula sobre o que é normalidade, o que está fora do padrão e como deve ser tratada essa marginalidade. E estes questionamentos são potencializados, neste novo milênio, por uma forte indústria cultural massificante e, também, com uma indústria farmacêutica gananciosa, onde até as sensíveis nuanças de comportamentos são passives de tratamentos químicos. Segundo pelas possibilidades transgressoras e singulares que esta montagem pode se transformar visualmente no palco, com a ironia, irreverência e inteligência do texto e as possibilidades estéticas que podem ser criadas a partir do tema "Loucura".

Além disto, a dramaturgia coloca em confronto o a visão cientifica de Simão Bacamarte (personagem central de "O Alienista") com o ponto de vista da Loucura sobre ela mesma, com os textos de Erasmo de Roterdan, produzindo um contraponto e procurando um dialogo singular e questionador sobre a patologia cerebral e, principalmente, os valores morais da sociedade. E os fragmentos dos textos do "Elogio da Loucura" ganharão uma dimensão única na voz do diretor de teatro Hugo Rodas, que por si só já nos remete uma visão particular sobre a loucura dos seres humanos, com seus antagonismos e contradições.

A proposta de direção desta montagem foi de utilizar o texto do Machado de Assis como um provocador do trabalho de criação dos atores, buscando produzir um caleidoscópio de informações visuais e verbais em um ritmo inquieto e instigante, onde a qualquer momento o público possa ser surpreendido por estas provocações. A encenação se apóia na força, no vigor e na ironia da palavra no texto machadiano para se desdobrar em cenas que permeiam o discurso conceitual da obra e não somente na narrativa de uma historia.


FICHA TÉCNICA

Direção e Dramaturgia: Hélio Fróes
Consultoria: Hugo Rodas
Textos: O Alienista de Machado de Assis e Elogio de Loucura de Erasmo de Roterdan

Elenco: Hélio Fróes, Izabela Nascente e Lázaro Tuim
Músicos: Cristiane Perné e Marcelo Falleiros/ Lucas Poleto
Loucura - Texto off: Hugo Rodas
Assistência de Direção: Carlos Cipriano e Izabela Nascente
Direção Musical: Cristiane Perné e Sergio Pato
Cenografia: Mara Nunes e Hélio Fróes
Figurinos: Rô Cerqueira
Bonecos: Izabela Nascente
Iluminação: Jr de Oliveira
Caracterização: Cia Nu Escuro
Confecção dos Figurinos: Ângela Lizita
Edição de Sonoplastia: Marcelo Falleiros e Sergio Váléirio
Operação de som: Bruno Garajau
Documentação em Vídeo: Fora da Lei
Fotos: Rubens Cerqueira
Programação Visual e Assessoria de Imprensa: Ana Paula Mota
Assistência em Produção: Raquel Veloso
Produção: Carlos Cipriano
Produção Executiva: Lázaro Tuim


MÚSICAS

A maçaneta é Fria
Letra: Hélio Fróes
Música: Cristiane Perné

Vendetta Castellana
Ou La Tragedia Portunhola del Hijo Iludido
Música popular mexicana
Paródia: Hélio Fróes

Canjica!
Letra: Hélio Fróes
Música: Marcelo Falleiros

Traída Letra: Hélio Fróes e Marcelo Falleiros
Música: Marcelo Faleiros

A Salvação do Abridor
Letra: Hélio Fróes e Rô Cerqueira
Música: Cristiane Perné e Sergio Pato

Defunto Distraído
Letra: Hélio Fróes
Música: Marcelo Falleiros

A Prima do Costa
Música: Hugo Rodas e Cristiane Perné


CRÍTICAS

Estado de graça
Vi, no domingo, 17, a peça O Alienista, da Cia de Teatro Nu Escuro. Com entrada franca, o teatro lotou no sábado e no Domingo. Fiquei alegremente impressionado.

Os atores e a direção capturam Machado de Assis de forma intensamente viva, explicitando por qual razão o prosador mantém-se moderno e admirado por críticos como Harold Bloom e Alfredo Bosi e escritores como John Updike e Carlos Fuentes.

Há alguns probleminhas, não-machadianos, como as conotações sexuais de algumas cenas, mas são, é possível dizer, atualizações teatrais e não desvirtuam inteiramente o original.

Por que perder tempo com bobagens do naipe de Friziléia, com uma atriz do segundo time, Elizabeth Savala? Não é melhor comprar um livro de piadas desses que se vendem nas bancas? Não. É melhor ver O Alienista.

Euler Belém
Editor do Jornal Opção
Publicado no Jornal Opção On-line de 24 a 30 de setembro de 2006


Maturidade
"Em O Alienista, tudo funciona de maneira correta e coerente: o cenário simples e eficiente, a luz bem feita, a parte musical surpreendente, a direção sem muitas invenções e a atuação dos atores. Nos seus dez anos de estrada, o grupo mostra um espetáculo que comprova a maturidade da trupe e a certeza de que novos e importantes vôos virão por aí. Sem muito alarde, o grupo Nu Escuro se firma como uma das três companhias teatrais mais importantes das artes cênicas goiana".

Carlos Brandão
Jornalista e Diretor do Centro Cultural Goiânia Ouro
Publicado no Jornal Diário da Manhã em 17 de outubro de 2006


As Faces do Alienista
Nesse domingo fui ver "O Alienista", com a companhia Nu Escuro. Grupo respeitado na cidade, com dez anos de estrada. Antes de qualquer coisa fiquei muito feliz em saber que estavam montando o texto do Machado, pois são lapidares as questões relacionadas a loucura e a crença messiânica de Simão Bacamarte, e não apenas elas referendam a força do texto. Questões essas já excessivamente tratadas e com todo o mérito, pela pertinência temática e singularidade que o olhar de um sujeito no ímpeto positivista do séc. XIX desmonta. O texto de Machado é incisivo contra a crença positivista, é irônico, é profundo, é pateticamente decadente. O louvor ao texto não é necessário e nem encontra distinção nas minhas palavras. Vale simplesmente pela fluência, pela certeza de ter embarcado nas venturas mascaradas por Simão Bacamarte. É uma história facilmente vivida pela humanidade e, salvo os meus clichês, é a fineza das sugestões do texto que devemos absorver pra dialogar com a pertinência ou não de algo.

Vamos à peça! "Na cidade de Itaguaí, voltando de seus estudos na Europa, e dominado por um sentimento humanitário, Simão Bacamarte intenta descobrir o remédio universal para a loucura. Para tanto, constrói um sanatório em sua cidade natal: a Casa Verde...". Eu já sabia de algumas coisas relacionadas ao espetáculo. O formato, a consultoria do Hugo Rodas, a trilha ao vivo, a porta da Casa Verde como cenário - a marca do cenário. Mas isso é extra. A peça em si se basta. E por quê? De cara você percebe o cuidado com a montagem, a responsabilidade consciente de não estragar o texto do Machado. E como teatro não é literatura simplesmente e a Nu Escuro sabe disso, o espetáculo se respalda nos seus dotes. Imediatamente há certo estranhamento e uma desconfiança: será que vai dar certo um espetáculo em que os instrumentos da trilha tomam conta da metade do palco? E não dá pra ignorar os músicos, primeiro porque eles respondem muitíssimo bem ao universo da peça, segundo porque eles não estão lá por acaso.

Tem uma estrutura narrativa que dialoga com a trilha, ela conta a história junto dos três atores, eles intervêm no texto e o texto intervem na trilha, na medida em que os atores são músicos e os músicos, atores. Esse é um grande mérito. O domínio de cena dos atores e dos músicos, a medida da ênfase já é por si só louvável, principalmente em se tratando das produções da terrinha, que não contam muito com essas virtudes. Um formato bem medido conjugado a essas virtudes nos leva a um bom espetáculo.

A leitura do texto remete a formação do discurso que convence a população de que os indicativos do Dr. Bacamarte são, de fato, os mais plausíveis. A formação desse imaginário na população, mediada ali na peça pelo público, não é bem desenvolvida. Presumo que isso seja uma questão de perspectiva. E isso causa certo problema. Porque a apresentação das questões fica "manca". Na medida em que falta um alicerce de respostas a como se sugere que tais compromissos sejam levados a cabo pela população, nós - o público - ficamos com os estereótipos arrolados pela peça. Vejam só: os estereótipos não são problemas. Pois é com eles que toda a tradição grega de teatro trabalha. Com arquétipos. O que é problema é deixá-los soltos. Um pouco soltos, eu diria. Essa primeira parte poderia ser mais zelada, para que a guerra dos discursos demonstrados posteriormente tivesse bases sólidas. Afinal é sob algum pretexto e sob algum jogo de referência e de montagem do discurso que Dr. Bacamarte faz com que todos embarquem em sua "racionalidade".Essa que por vezes se baseia em bizarrices de conceito digno das nossas loucuras. E risos!

A formatação do espetáculo, a luz, o gestual, o figurino, a trilha, as vozes em off, todos muito bons. A musica é rica, e eu já disse que dialoga com o texto. Cristiane Perné canta sabendo do seu lugar. Sua voz à lá Elza Soares traz à tona um drama longo e delgado.

Pra mim faltou um foco de luz na tensão da guerra dos discursos e seus aparatos. Pois público tem que sair do teatro feliz com os movimentos dos atores, com música tensa e alegre, com o tratamento do texto, com os jogos de cenas, com os bonecos, com toda a infinidade que a Nu Escuro não exclui de se utilizar, mas também deve sair com uma pulga atrás da orelha e dizendo pra si mesmo sobre algo que ficou no ar ali, um tempero que foge às feições dos personagens, que está no âmbito das reflexões e comunicação de todas as "loucuras" inculcadas no homem e em sua história. Como nos trataremos?

Marcelo Brice
OUTUBRO 17, 2006
http://casadodemo.blogspot.com
(Blog do zine literário Demo Cognítio)


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