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CRÍTICAS CIA DE TEATRO NU ESCURO
Referência CulturalProfissionalismo e audácia. Estas seriam as principais características desta companhia teatral que rompeu as barreiras do provincianismo cultural regional de Goiás, pondo as artes cênicas e consequentemente a cultura goiana em evidência transformação no jeito de se fazer arte em nossa cidade. Todo segmento artístico tem como referências grupos ou indivíduos que se destacam no modo de se produzir cultura e a Cia de Teatro Nu Escuro assume um papel de vanguarda em nosso estado em relação às artes cênicas, num lugar onde o teatro vem se projetando com atuações de vários artistas desde a década de 70. O diferencial é que a Nu Escuro se consolida como um grupo que assume o fazer coletivo, dividindo responsabilidades em todo processo de construção de uma peça teatral. Uma companhia de fato que faz com que todas as etapas da construção de um espetáculo, da concepção a apresentação, se realize com minúcias e bons argumentos. Outro elemento de destaque deste grupo é a preocupação com um bom trabalho de pesquisa, contribuindo com a argumentação do roteiro e resultando num bom trabalho de dramaturgia. Percebe-se também a tendência desta Cia por temas relacionados a cultura popular, tendo como base a literatura brasileira e por temas regionalistas, aumentando ainda mais a importância desta companhia para Goiás, pois tornar-se uma transmissora de conhecimento de nossa história. O experimentalismo pioneiro em novas abordagens como a música e o boneco trouxeram mais brilho ainda, proporcionado ao público goiano elementos populares da cultura brasileira numa representação cênica feita por um grupo local. A importância atribuída a esta Cia deve-se não somente aos resultados de seus bons espetáculos, mas também da sua participação nos assuntos relacionados a políticas para a cultura em nosso estado, fazendo-se representar as artes cênicas nas discussões institucionais. Destaca-se também na participação em projetos de cunho sócio-cultural, onde leva o teatro para escolas e periferia de Goiânia. O resultado do profissionalismo, cumplicidade e união de seus integrantes faz com que consigam alcançar resultados até não visto em Goiás, como manter uma sede própria, ter uma agenda lotada a cada ano, ser objeto de estudo de pesquisas acadêmicas, terem por dois anos os melhores espetáculos de Goiás, receber prêmios, méritos e ser reconhecida quase que por unanimidade como uma referência no teatro em Goiás. Os últimos espetáculos demonstram a seriedade desta trupe, espetáculos que sensibilizam seus espectadores, que trazem discussões relacionadas ao nosso cotidiano, que mostra como trapaças, espertezas, paixões, loucuras e audácias se materializam nessa arte chamada teatro. Bruno Garajau Pimenta Historiador, pesquisador da cultura popular brasileira Diretor Cultural da Ong Forsec Como diz o provérbio chinês... Outro dia, durante a leitura de uma revista de circulação nacional, que certamente destoa da linha reprodutivista e mecânica do Grande Irmão, li um provérbio chinês que gostaria de citar, "Se você está pensando na situação daqui a um ano, plante arroz. Se você está pensando na situação daqui a uma década, plante árvores. Mas se você está pensando na situação daqui a um século, eduque as pessoas". Desde o surgimento da Cia. de Teatro Nu Escuro percebemos a consolidação de um trabalho sério de fruição estética peculiar e compromisso social com a comunidade e as artes cênicas que pode ser comparado à beleza e robustez de uma árvore, se não centenária, certamente com dez anos já completos. Em cada espetáculo o público degusta um fruto que é aprimorado com pesquisas, experimentações e ensaios incessantes. A Cia Nu Escuro apresentando-se na rua ou no Teatro dá ao público a satisfação de assistir um trabalho que explora a riqueza de nossa cultura dos rincões do campo à erudição Machadiana e não poderíamos esquecer, é claro, da expressividade cênica dos bonecos. Tive o prazer e o privilégio de acompanhar, na qualidade de amigo e parceiro, a preparação e montagem de alguns espetáculos, além do dia-a-dia de um grupo de pessoas que enfrentam o desafio de fazer teatro numa terra tomada por "pastagens e rebanhos". E longe de mim desmerecer a vida sertaneja, aliás abordada pela Cia com riqueza de detalhes dignificados pela irreverência e seriedade já conhecidas. O certo é que a força desta árvore de dez anos, que já rendeu muitos frutos, nos dará tantos outros e, parafraseando o provérbio chinês, no decorrer do século certamente experimentaremos a continuação do trabalho da Cia Nu Escuro, educando públicos com a arte de encenar o mundo, mundo afora e re-significando nossa realidade "do pé rachado". Cleber Carvalho Diretor da Escola Municipal Brice Francisco Cordeiro Especialista em Educação Física Escolar. O ALIENISTA
Estado de graçaVi, no domingo, 17, a peça O Alienista, da Cia de Teatro Nu Escuro. Com entrada franca, o teatro lotou no sábado e no Domingo. Fiquei alegremente impressionado. Os atores e a direção capturam Machado de Assis de forma intensamente viva, explicitando por qual razão o prosador mantém-se moderno e admirado por críticos como Harold Bloom e Alfredo Bosi e escritores como John Updike e Carlos Fuentes. Há alguns probleminhas, não-machadianos, como as conotações sexuais de algumas cenas, mas são, é possível dizer, atualizações teatrais e não desvirtuam inteiramente o original. Por que perder tempo com bobagens do naipe de Friziléia, com uma atriz do segundo time, Elizabeth Savala? Não é melhor comprar um livro de piadas desses que se vendem nas bancas? Não. É melhor ver O Alienista. Euler Belém Editor do Jornal Opção Publicado no Jornal Opção On-line de 24 a 30 de setembro de 2006 Maturidade "Em O Alienista, tudo funciona de maneira correta e coerente: o cenário simples e eficiente, a luz bem feita, a parte musical surpreendente, a direção sem muitas invenções e a atuação dos atores. Nos seus dez anos de estrada, o grupo mostra um espetáculo que comprova a maturidade da trupe e a certeza de que novos e importantes vôos virão por aí. Sem muito alarde, o grupo Nu Escuro se firma como uma das três companhias teatrais mais importantes das artes cênicas goiana". Carlos Brandão Jornalista e Diretor do Centro Cultural Goiânia Ouro Publicado no Jornal Diário da Manhã em 17 de outubro de 2006 As Faces do Alienista Nesse domingo fui ver "O Alienista", com a companhia Nu Escuro. Grupo respeitado na cidade, com dez anos de estrada. Antes de qualquer coisa fiquei muito feliz em saber que estavam montando o texto do Machado, pois são lapidares as questões relacionadas a loucura e a crença messiânica de Simão Bacamarte, e não apenas elas referendam a força do texto. Questões essas já excessivamente tratadas e com todo o mérito, pela pertinência temática e singularidade que o olhar de um sujeito no ímpeto positivista do séc. XIX desmonta. O texto de Machado é incisivo contra a crença positivista, é irônico, é profundo, é pateticamente decadente. O louvor ao texto não é necessário e nem encontra distinção nas minhas palavras. Vale simplesmente pela fluência, pela certeza de ter embarcado nas venturas mascaradas por Simão Bacamarte. É uma história facilmente vivida pela humanidade e, salvo os meus clichês, é a fineza das sugestões do texto que devemos absorver pra dialogar com a pertinência ou não de algo. Vamos à peça! "Na cidade de Itaguaí, voltando de seus estudos na Europa, e dominado por um sentimento humanitário, Simão Bacamarte intenta descobrir o remédio universal para a loucura. Para tanto, constrói um sanatório em sua cidade natal: a Casa Verde...". Eu já sabia de algumas coisas relacionadas ao espetáculo. O formato, a consultoria do Hugo Rodas, a trilha ao vivo, a porta da Casa Verde como cenário - a marca do cenário. Mas isso é extra. A peça em si se basta. E por quê? De cara você percebe o cuidado com a montagem, a responsabilidade consciente de não estragar o texto do Machado. E como teatro não é literatura simplesmente e a Nu Escuro sabe disso, o espetáculo se respalda nos seus dotes. Imediatamente há certo estranhamento e uma desconfiança: será que vai dar certo um espetáculo em que os instrumentos da trilha tomam conta da metade do palco? E não dá pra ignorar os músicos, primeiro porque eles respondem muitíssimo bem ao universo da peça, segundo porque eles não estão lá por acaso. Tem uma estrutura narrativa que dialoga com a trilha, ela conta a história junto dos três atores, eles intervêm no texto e o texto intervem na trilha, na medida em que os atores são músicos e os músicos, atores. Esse é um grande mérito. O domínio de cena dos atores e dos músicos, a medida da ênfase já é por si só louvável, principalmente em se tratando das produções da terrinha, que não contam muito com essas virtudes. Um formato bem medido conjugado a essas virtudes nos leva a um bom espetáculo. A leitura do texto remete a formação do discurso que convence a população de que os indicativos do Dr. Bacamarte são, de fato, os mais plausíveis. A formação desse imaginário na população, mediada ali na peça pelo público, não é bem desenvolvida. Presumo que isso seja uma questão de perspectiva. E isso causa certo problema. Porque a apresentação das questões fica "manca". Na medida em que falta um alicerce de respostas a como se sugere que tais compromissos sejam levados a cabo pela população, nós - o público - ficamos com os estereótipos arrolados pela peça. Vejam só: os estereótipos não são problemas. Pois é com eles que toda a tradição grega de teatro trabalha. Com arquétipos. O que é problema é deixá-los soltos. Um pouco soltos, eu diria. Essa primeira parte poderia ser mais zelada, para que a guerra dos discursos demonstrados posteriormente tivesse bases sólidas. Afinal é sob algum pretexto e sob algum jogo de referência e de montagem do discurso que Dr. Bacamarte faz com que todos embarquem em sua "racionalidade".Essa que por vezes se baseia em bizarrices de conceito digno das nossas loucuras. E risos! A formatação do espetáculo, a luz, o gestual, o figurino, a trilha, as vozes em off, todos muito bons. A musica é rica, e eu já disse que dialoga com o texto. Cristiane Perné canta sabendo do seu lugar. Sua voz à lá Elza Soares traz à tona um drama longo e delgado. Pra mim faltou um foco de luz na tensão da guerra dos discursos e seus aparatos. Pois público tem que sair do teatro feliz com os movimentos dos atores, com música tensa e alegre, com o tratamento do texto, com os jogos de cenas, com os bonecos, com toda a infinidade que a Nu Escuro não exclui de se utilizar, mas também deve sair com uma pulga atrás da orelha e dizendo pra si mesmo sobre algo que ficou no ar ali, um tempero que foge às feições dos personagens, que está no âmbito das reflexões e comunicação de todas as "loucuras" inculcadas no homem e em sua história. Como nos trataremos? Marcelo Brice OUTUBRO 17, 2006 http://casadodemo.blogspot.com (Blog do zine literário Demo Cognítio) ENVELOPES
ConsideraçõesO Espetáculo constitui-se numa proposta lúdica, com uma história narrativa contrapontuando com a música incidental. A transposição corporal do imaginário para o real proporciona a interação de linguagem. Os bonecos resultam humanizado em cena. A combinação de bonecos com atuações humanas resulta válida, com recursos luminotécnicos adequados, mise-enscène com um belo visual e precisão de movimentos. Uma pesquisa/proposta de hibridez de linguagens cênicas convincente. A parte percussão deveria ser mais determinante na condução do espetáculo. Comissão Julgadora - Goiânia em Cena 2006 Antonio Miranda Rocio Infante Fábio de Araújo O CABRA QUE MATOU AS CABRAS
Amor ao TeatroO Grupo de Teatro Nu Escuro vem realizando há anos uma pesquisa cênica de raízes bem brasileiras que tem encantado a todos. São artistas coerentes na sua busca, disciplinados e muito criativos, o que nos faz supor que, muito em breve, ocuparão um lugar especial entre os artistas que resistem aos modismos e ao tédio da globalização. Seu mais recente espetáculo "O Cabra que Matou as Cabras" além de muito divertido, aprofunda um pouco mais o sentido de sua busca e revela o interesse que demonstra ter pelas novas-velhas formas do que chamamos "uma maneira brasileira de fazer teatro" - estão ali os clichês do humor, o auto-deboche, a chanchada esperta, a agilidade da encenação, a caricatura e a crítica, entre outros elementos deliciosos do teatro popular. Nenhuma pretensão transparece no espetáculo, a não ser a de conduzir o espectador pelos caminhos do bom teatro, feito de ingenuidade e prazer, mas que nem por isso aliena e hipnotiza o público. As boas interpretações, críticas e distanciadas mantém-nos vivos e também críticos, como deve ser o bom teatro. O Nu Escuro merece a atenção de quem ama o teatro de fato. Marcos Fayad Diretor da Cia teatral Martim Cêrere O Cabra que matou as cabras Ou... o pum que me fez chorar Conheço a Cia de Teatro Nu Escuro. Conheço cada um de seus integrantes e conheço suas trajetórias. Conheço os trabalhos que já fizeram e, muito do que sei hoje sobre teatro aprendi com eles. Conheço "O Cabra que matou as Cabras" desde o começo da idéia. Acompanhei a montagem, os primeiros ensaios, a pesquisa. Assistindo à terceira apresentação da peça, vivi momentos que nunca tinha vivido ainda. À céu aberto, o dia lindo, claro e um sol de calor gostoso homenageavam um público de mais de 500 pessoas. A platéia, em grande parte nunca havia vivido um espetáculo teatral, atenta acompanhava o desenrolar da trama com muita risada e euforia. Eu, que começara prestando atenção ao espetáculo, fui levado a acompanhar a vibração da eclética platéia. As reações individuais e coletivas revelavam tudo que um trabalho sério pode almejar e me emocionava. Já contente por estar ali naquele momento, quando o juiz, interpretado pela Eliana, apareceu em cena, gordo, com movimentos lentos e, ao se ajeitar na cadeira levantou a perna esquerda soltando um estrondoso peido. A criança e provavelmente a mãe dela, à minha frente, levantaram os braços numa gargalhada sonora que se juntou ás do resto do público e se abraçaram e eu... chorei! Marcos Amaral Lotufo Diretor da Ong "Oficina Cultural Gepeto" |